Up To Lisbon Kids, janeiro 2014
Marcos Meier, Psicólogo e Mestre
em Educação

A Influência dos Elogios no Desempenho das Crianças

Os pais, regra geral têm tendência a elogiar os filhos pelos seus feitos. Tudo começa quando eles são bem pequeninos, e fazem cocó sozinhos (sem bebégel) aos 3 dias de gente: “Espetacular, conseguiu logo, vê-se que é uma criança determinada”.

Pronto! Começou a asneirada.

Todos sabemos que os nossos filhos, aos nossos olhos, são perfeitos. Mas os pais tornam-se perfeitos idiotas quando elogiam excessivamente uma criança: 1º porque ela não é estúpida, sabe que a sua primeira letra não foi fantástica, foi razoável. E se não se aperceber na altura do elogio vai perceber quando escrever o alfabeto completo, voltar ao início do caderno e se deparar com as suas primeiras palavras escritas; 2º porque estamos a abrir a porta à preguiça, e à insolência (na melhor das hipóteses).

Há elogios positivos, que reforçam a autoestima dos miúdos, fazendo com que queiram continuar a tentar realizar tarefas. Há outros que são ocos, frívolos e apenas afagam o ego dos pais que muitas vezes não despendem o tempo que queriam com os seus filhos, e elogiam-nos constantemente para reforçar algo que não sabem bem o que é. Eu faço-o às vezes. E no momento sinto-me bem, mas sei que a longo prazo estou a fazer-lhes mal!

O Psicólogo e Mestre em Educação Marcos Meier, realizou uma palestra sobre “A Influência dos Elogios no Desempenho das Crianças e na Formação de Valores” em que documenta de forma muito interessante este tema.

“Recentemente, um grupo de crianças pequenas passou por um teste muito interessante. Psicólogos propuseram uma tarefa de média dificuldade, que elas executariam, contudo, sem grandes problemas. Todas conseguiram terminar a tarefa depois de certo tempo. Em seguida, foram divididas em dois grupos.

O grupo A foi elogiado quanto à inteligência: “Uau! Como tu és inteligente!”, “Como tu és esperto!”, “Que orgulho! Tu és genial!”… E outros elogios relacionados com a capacidade de cada criança.
O grupo B foi elogiado quanto ao esforço: “Parabéns! gostei de ver o quanto te dedicaste nesta tarefa!”, “É muito bom ver o quanto te esforçaste!”, “Como tu és persistente! Tentaste, tentaste, até conseguir… Muito bem!” E outros elogios relacionados com o empenho realizado e não com as capacidades percebidas na criança.

Depois dessa fase, uma nova tarefa de dificuldade equivalente à primeira foi proposta aos dois grupos de crianças. Aqui, elas podiam escolher se queriam ou não participar da mesma.

As respostas das crianças surpreenderam. A grande maioria das crianças do grupo A não participou.

Não quiseram nem tentar. Por outro lado, as crianças do grupo B aceitaram o desafio. Não recusaram a nova tarefa.

A explicação é simples e ajuda-nos a compreender como elogiar os nossos filhos e os nossos alunos. O ser humano foge de experiências que possam ser desagradáveis. A maioria das crianças, elogiadas apenas pela sua inteligência e esperteza, não quis arriscar-se a errar, pois o erro poderia modificar a imagem que os adultos tinham delas. Já as crianças elogiadas pelo seu esforço, dedicação à tarefa ou persistência, dispuseram-se a tentar, porque independentemente do resultado da sua ação, a sua postura frente ao trabalho é que seria reconhecida.

Sabemos de “n” casos de jovens considerados muito inteligentes não passarem em exames, enquanto aqueles jovens “médios” conquistam essa vitória. Os “inteligentes”, muitas vezes, confiam na sua capacidade e deixam de se preparar adequadamente. Os outros sabem que se não estudarem muito não serão aprovados e, justamente por isso, estudam mais, resolvem mais exercícios, leem e aprofundam mais em cada uma das disciplinas.

No entanto, isso não é tudo. Além dos conteúdos escolares, os nossos filhos precisam de aprender valores, princípios e ética. Precisam de respeitar as diferenças, de lutar contra os preconceitos, de adquirir hábitos saudáveis e construir amizades sólidas. Não se consegue nada disso por meio de elogios frágeis, com enfoque apenas no ego de cada um. É preciso que sejam incentivados constantemente a agir assim. Isso faz-se com elogios, feedbacks, e incentivos ao comportamento esperado.

Os nossos filhos precisam de ouvir frases, como: “Que bom que tu o ajudaste, tens um bom coração”, “Parabéns, meu filho, por teres dito a verdade apesar de estares com medo… Tu és honesto”, “Filha, fiquei orgulhoso por teres dado atenção à tua colega novata em vez de tê-la excluído, como algumas de tuas colegas o fizeram… Tu és solidária”, “Isso mesmo, filho; deixar o teu primo brincar com a tua PSP foi fantástico, tu és um bom amigo”.

Elogios deste tipo estão fundamentados em ações reais e reforçam o comportamento da criança, que tenderá a repeti-los. Isso não é “tática” paterna, é incentivo real.

Por outro lado, elogiar superficialidades é uma tendência atual. “Que linda que tu és, amor!”, “Acho-te muito esperto, meu filho!”, “Como és charmoso!”, “Que cabelo lindo!”, “Os teus olhos são tão bonitos!”.

Elogios como estes não estão baseados em factos, nem em comportamentos ou atitudes. São apenas impressões e interpretações dos adultos. Em breve, essas crianças tenderão a fazer chantagens emocionais, birras, manhas e “charminhos”. Quando adultos, não terão desenvolvido resistência à frustração e a fragilidade emocional estará presente.

Homens e mulheres de personalidade forte e saudável são como carvalhos que crescem nas encostas das montanhas. Os ventos não os derrubam, pois cresceram na presença deles. São frondosos, têm copas grandes e o verde de suas folhas mostra vigor, pois alimentaram-se da terra fértil.

Que os nossos filhos recebam o vento e a terra adubada pela nossa postura firme e carinhosa.”