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ABC, 13 de abril 2012
Laura Peraita

O maior erro dos pais é a falta de constância com os seus filhos

Rocío Ramos, educadora de menores, é a pessoa que todos os que temos filhos gostávamos de ter em casa durante uma temporada para que nos ensinasse a pôr em ordem o comportamento e a relação entre pais e filhos. Recentemente publicou o seu último livro “Crianças desobedientes, pais desesperados”, onde ensina junto com Luis Torres o método para que um filho obedeça à primeira.

Porque parece que agora necessitamos de um manual debaixo do braço para educar os nossos filhos?
Vivemos nas últimas décadas uma serie de mudanças que levou a termos que enfrentar a educação de modo diferente. Os pais costumam dizer “é muito despachado”. Mas o que se passa é que agora as crianças de três anos já viajaram de avião, já viram a praia, ouviram contadores de histórias, assistiram ao teatro… tudo isto faz com que a criança seja mais inteligente, domine a linguagem antes de tempo, tenha determinados raciocínios mais cedo. Antes uma criança escutava o seu pai dizer “isto é assim porque sim”, mas agora esta frase não serve porque sabe raciocinar e pede explicações.

São agora as crianças mais desobedientes ou os pais mais desesperados?
Generalizar é muito mau, mas hoje existe um perfil de pai que lhe custa muito dizer “não”, o que complica muito as coisas. Não é que sejam mais desobedientes, é que se a criança não ouve um “não”, não se lhe deu a oportunidade de esperar ou não teve que se esforçar para conseguir algo desde o zero aos oito anos, que é quando se aprende estas questões, a situação fica cada vez mais complicada.

Qual é a chave para que a educação seja a correta?
É muito importante estabelecer muito bem os limites e as normas, bem como os hábitos e as rotinas. Tudo o que tem que ver com a inteligência emocional favorece a autoestima, o desenvolvimento e o controle das emoções.

Quais são os erros mais habituais dos pais?
Há tantos “erros” como pais… O adulto deve compreender que é capaz de conter a emoção muito melhor do que a criança, que tem que “saber estar” quando o seu filho grita, (…) e que nunca deve deixar de chamar a atenção perante uma conduta errada. O objetivo não é que um filho faça o que o pai quer, mas antes que entenda que as normas facilitam-nos a vida. Quando amanhã quiser apanhar o autocarro, ir à escola, trabalhar ou ter amigos terá que respeitar umas normas de convivência.

Desobedecer forma parte da natureza da criança, é possível que obedeça à primeira?
(…) Na etapa da autonomia, dos 2 aos 3 anos, a criança quer fazer as coisas sozinha, sem ajuda, e tende a resistir à obediência à primeira. Nesta fase, os pais devem ensinar o seu filho que não devem resistir porque a regra e a obediência tem vantagens. De início podemos ajudá-los com estímulos positivos, mas o importante é que aos poucos entendam a vantagem em obedecer. Controlando a criança também estamos a trabalhar as suas emoções pois no dia de amanhã quando oportunamente vier a pedir um aumento de remuneração ao chefe e este o negar não poderá responder com uma birra.

Quanto tempo pode levar a obedecer?
O mundo atual é muito rápido e queremos tudo para já. Dar uma pauta é fácil, ler o livro também, mas o maior erro dos pais na educação dos seus filhos é a falta de constância. A educação não é “hoje aplicar uma determinada pauta e amanhã obter o resultado”. Há que fazê-lo muitas vezes, ir adaptando e esperar um resultado a longo prazo. Se hoje ponho normas e digo “não” ao meu filho de três anos e sou constante na abordagem, é muito provável que cheguem os resultados quando ele tenha 20 anos, porque o ensinei a trabalhar em equipe, a ser cooperativo, autocrítico… Os pais têm que ter constância.

Não há tempo a perder. Desde um ponto de vista prático, como começar?
Com muito poucas normas, duas ou três no máximo. Não faz falta mais. Também explicando muito bem ao pequeno o que ocorre quando cumpre as normas e o que sucede quando não as cumpre. E evidentemente ser muito constante com ele. Não falha!

Porquê que alguns pais não se atrevem a dizer “não”?
É incrível que uma pessoa adulta e que pode agarrar pelo braço do seu filho quase como que a um boneco, tenha medo da sua reação. Não sei o que pode temer. Têm que vencer esta parte.

Por onde começar?
Há um exercício muito bom que é imaginar-se a mesma situação mas do lado de fora. Imaginar o que pensaria de um pai que está totalmente submetido aos caprichos da criança: que quer ou não comer, que decide quando se deita… Contado assim, há pais que se riem porque é impactante.  Há que analisar como atuar em cada momento.

Há muitas crianças que em casa têm um mau comportamento e no colégio são estupendos. Como se explica?
Há muitíssimos casos. Mas presumindo-se que se trata de uma criança saudável, diria que no colégio cumpre as normas, respeita os limites e sente segurança porque sabe o que tem que fazer em cada momento e desta forma entra num hábito, numa rotina. Em casa, a criança também sabe o que há que fazer, no entanto não se importa com isso. Logo o que os pais têm que fazer é modificar o seu próprio comportamento perante as normas não cumpridas e as suas consequências. É natural que em casa haja algo que falha e então é necessário a consistência com as consequências de não obedecer, a firmeza no momento de dizer as coisas…

Há uma idade para conseguir que mude o seu comportamento?
Nunca há casos perdidos. O ser humano pode mudar em qualquer momento da sua vida.