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Publicado em 07/04/2014

Os sapatos de Cinderella

O governo britânico está a preparar uma proposta de lei que obrigue os pais a querer os seus filhos. A nova lei prevê penas até dez anos de prisão para os progenitores que não transmitam amor aos seus descendentes, que não os abracem ou que não lhes deem demonstrações de afeto, por considerar tais omissões um delito de “crueldade emocional” (The Telegraph).

A proposta que quer acabar com os maus-tratos infantis será, segundo Tony Hawkhead, diretor da associação Action for Children, um passo monumental para milhares de crianças que se encontram numa situação de abandono – milhão e meio de menores britânicos segundo os dados oficiais. Esta associação denunciou que no Reino Unido entre 200 e 300 crianças sofreram casos de negligência e nenhum dos seus responsáveis foram levados a tribunal.

Contudo, a nova lei não nasce apenas para acabar com os maus-tratos e abusos físicos dos menores, mas também para eliminar qualquer rasto de “negligência paterna”, por exemplo, quando os pais permitem que os seus filhos presenciem cenas de violência doméstica ou são duramente castigados. Pode-se dizer, a partir da aprovação desta lei que os pais britânicos estarão obrigados, por lei, a querer os seus filhos sob pena de ir para a prisão.

A proposta foi batizada de Cinderella por ser uma tentativa de acabar com a crueldade contra as crianças, um “odioso crime” que deve ser castigado. Nenhuma criança, segundo a lei, deve ser tratada como uma Cinderella, mas antes deve ser amada, atendida e respeitada pelos seus pais ou por quem tem a sua responsabilidade.

Recordemos o conto: Cinderella vivia como escrava na sua própria casa, onde as suas meias-irmãs a odiavam e onde estava obrigada a fazer os trabalhos mais duros, andando suja e desarranjada, mal vestida e descalça. Mas tudo muda quando a sua fada madrinha a veste de princesa para poder ir ao baile do Palácio e a calça com uns sapatinhos de cristal.

Curiosamente, os sapatos que Cinderella iria levar não eram de cristal mas de couro. Assim escreveu Charles Perrault, o autor do conto. Contudo, um erro tipográfico do editor mudou a palavra francesa “vaire” (couro) por “verre” (vidro, cristal), de modo que a protagonista apareceu na sala de baile com os seus famosíssimos sapatinhos de cristal.

Da noite para a manhã, ou melhor, da manhã para a noite, Cinderella passou de serviçal, desprezada, maltratada e odiada, a uma autêntica princesa, admirada por todos e amada pelo príncipe herdeiro daquele reino. Contudo, agora sim, da noite para a manhã, voltou a ser uma cinderella pela simples razão de ter perdido o seu sapato de cristal.

Como é evidente, nenhuma lei positiva pode obrigar os pais a amar os seus filhos (já o faz a lei natural);  mas pode obrigar a atendê-los e a educá-los, que no fundo é a forma que os pais têm de querer os seus filhos. Não podemos criá-los descalços de afetos, de atenções, de respeito; mas também não os devemos calçar com sapatos de cristal, convertê-los em princesas de contos, enchê-los de mimos e esvaziá-los de responsabilidades. Ponhamos-lhes sapatos de couro, como escreveu Perrault, entrançando exigência com carinho, autoridade com afeto, disciplina com amor. Nem Cinderellas descalças nem encantadoras princesas com sapatos de cristal: não cometamos o mesmo “erro tipográfico” porque os nossos filhos não são personagens de um conto de fadas.